28 de Maio, 2026

Guia do mercado regulado

Por Analista de Apostas Desportivas

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Leitura de 20 min

O mercado português de apostas desportivas em números

Há nove anos, quando comecei a analisar o mercado de apostas desportivas em Portugal, a realidade era outra. Não existia regulamentação, não existiam dados públicos e quem apostava fazia-o num vazio legal que ninguém queria discutir. Em 2015, o Regime Jurídico do Jogo Online mudou tudo — e o que era um mercado cinzento transformou-se num dos setores de jogo mais fiscalizados da Europa. Hoje, sento-me a escrever este guia com acesso a relatórios trimestrais do SRIJ, dados demográficos de quase 5 milhões de contas registadas e uma receita bruta que ultrapassou os 1,21 mil milhões de euros em 2025.

Este não é mais um artigo sobre “onde apostar”. É uma radiografia do mercado regulado — com números do regulador, tendências verificáveis e contexto que falta em praticamente toda a informação disponível online sobre apostas em Portugal. Ao longo das próximas secções, vou desmontar a evolução do setor, explicar como funciona a fiscalidade, quem são os apostadores portugueses e por que razão o jogo ilegal continua a ser uma ameaça séria, apesar de uma década de regulamentação.

Receita bruta anual

1,21 mil milhões de euros em 2025 — recorde histórico do jogo online em Portugal.

Contas de jogadores registadas

Quase 5 milhões no final de 2025, com mais de 230 mil novos registos só no último trimestre.

Operadores licenciados

18 entidades autorizadas pelo SRIJ, gerindo 32 licenças ativas entre apostas desportivas, casino e bingo.

Contribuição fiscal (IEJO)

Quase 254 milhões de euros em impostos sobre o jogo nos primeiros nove meses de 2025.

Se está a dar os primeiros passos ou se já aposta há anos e quer perceber o panorama completo, este guia foi construído para si. Vou usar dados reais, não suposições — e quando houver matéria que mereça aprofundamento, indico exatamente onde encontrar essa informação nos artigos especializados do $$SITE_NAME$$. Comecemos pelo princípio: como é que Portugal chegou a ter um mercado de apostas desportivas que movimenta milhares de milhões.

Antes de entrar na evolução histórica, vale a pena ter uma visão panorâmica dos pontos essenciais que este guia cobre — especialmente se tiver pouco tempo.

O essencial sobre o mercado regulado de apostas em Portugal

  • O mercado de jogo online português atingiu 1,21 mil milhões de euros em receita bruta em 2025, com 18 operadores licenciados pelo SRIJ e quase 5 milhões de contas registadas.
  • O futebol domina 71–75% do volume de apostas desportivas; mais de 75% das apostas são feitas via telemóvel.
  • Os jogadores não pagam impostos sobre ganhos em operadores legais — o IEJO é suportado pelos operadores, com taxas de 8% sobre turnover desportivo e 25% sobre GGR de casino.
  • 40% dos portugueses que jogam online utilizam plataformas ilegais, custando ao Estado cerca de 100 milhões de euros anuais em impostos perdidos.
  • Mais de 361 000 contas estavam autoexcluídas no final de 2025 — um crescimento de 23,9% que sublinha a importância do jogo responsável e das ferramentas de proteção.

Evolução do mercado: de 2015 ao recorde de 1,21 mil milhões de euros

Lembro-me de acompanhar a primeira licença atribuída em Portugal — a Betclic foi a pioneira, e na altura havia quem duvidasse que o modelo regulado fosse alguma vez competitivo com os gigantes internacionais que operavam sem restrições. Dez anos depois, o mercado regulado gera mais de mil milhões anuais e o crescimento, embora esteja a desacelerar, mantém-se positivo. A transformação é, em si mesma, uma história que merece ser contada com números.

Antes de 2015, as apostas desportivas online em Portugal existiam num limbo. Os portugueses apostavam em plataformas estrangeiras sem qualquer proteção legal, os operadores não pagavam impostos ao Estado e o regulador não tinha ferramentas para intervir. O Decreto-Lei n.º 66/2015, que aprovou o Regime Jurídico do Jogo Online, alterou este cenário ao criar um sistema de licenciamento obrigatório sob a supervisão do SRIJ — o Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos.

Cronologia do Regime Jurídico do Jogo Online

2015 — Aprovação do RJO e atribuição das primeiras licenças. A Betclic foi o primeiro operador licenciado em Portugal.

2016–2018 — Expansão gradual do número de operadores. Implementação do registo centralizado de jogadores e do sistema de autoexclusão.

2019–2020 — A pandemia acelerou o crescimento: com estádios fechados e mais tempo em casa, o número de registos e o volume de apostas dispararam.

2021–2023 — A receita bruta anual ultrapassou pela primeira vez os 900 milhões de euros. O SRIJ consolidou a publicação de relatórios trimestrais detalhados.

2024 — Receitas brutas de cerca de 1.175 milhões de euros, com um IEJO de 335 milhões de euros. O último trimestre bateu o recorde com 323 milhões de euros.

2025 — Novo recorde anual: 1,21 mil milhões de euros em receita bruta.

Evolução do mercado de apostas desportivas em Portugal desde 2015
O mercado regulado de apostas desportivas em Portugal registou um crescimento contínuo desde 2015

O objetivo declarado do RJO foi claro desde o início: proporcionar competitividade ao mercado português, partindo do princípio de que só assim seria possível reduzir o jogo online ilegal. E durante os primeiros anos, o crescimento foi notável. Em 2024, o jogo online registou cerca de 1.175 milhões de euros em receitas brutas, gerando 335 milhões em IEJO para os cofres do Estado. O quarto trimestre desse ano foi particularmente expressivo, com uma receita bruta de 323 milhões de euros — um aumento de 42% face ao período homólogo.

Mas foi 2025 que consolidou o mercado num novo patamar. A receita bruta anual atingiu 1,21 mil milhões de euros, um recorde que poucos antecipavam há uma década. Este número reflete não só o aumento do número de jogadores, mas também a diversificação da oferta — com o casino online a ganhar terreno progressivo face às apostas desportivas.

Nos primeiros nove meses de 2025, o volume total de apostas desportivas em Portugal ultrapassou os 16,7 mil milhões de euros — um aumento de 10,2% em relação ao período homólogo. Cada português adulto gastou, em média, o equivalente a centenas de euros em apostas ao longo do ano.

Olhando para os números em perspetiva, a trajetória é inequívoca. De um mercado inexistente em termos regulamentares a um setor que contribui com centenas de milhões em impostos anuais, a evolução do jogo online português não tem paralelo na maioria dos mercados europeus de dimensão semelhante. Mas o crescimento acelerado dos primeiros anos está a dar lugar a uma fase de maturação — e é nessa fase que nos encontramos agora.

Crescimento trimestral e tendências

Quem acompanha os relatórios do SRIJ trimestre a trimestre nota uma coisa: os números continuam a subir, mas a velocidade já não é a mesma. E isso não é necessariamente mau — é o sinal de um mercado que está a amadurecer.

No terceiro trimestre de 2025, a receita bruta do jogo online foi de 297,1 milhões de euros, um crescimento de 11,6% face ao período homólogo e de 3,5% face ao trimestre anterior. Números sólidos, mas longe dos saltos de 30% ou 40% que se verificavam em anos anteriores. Já no quarto trimestre, o mercado voltou a surpreender: a receita bruta atingiu os 337,6 milhões de euros — novo recorde trimestral, com um crescimento de 4,5% em termos homólogos e de 13,6% face ao terceiro trimestre.

Ricardo Domingues, presidente da APAJO — a Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online —, tem sido vocal sobre esta tendência. Na sua análise ao terceiro trimestre de 2025, afirmou que os dados confirmam uma desaceleração que se justifica pelo amadurecimento do mercado, considerando que esta variável se deverá manter, especialmente se não se dificultar o acesso ao mercado ilegal e se nada for feito para tornar o produto mais competitivo face à oferta internacional.

O que estes números revelam é uma tensão fundamental: o mercado regulado cresce, mas enfrenta um teto imposto pela concorrência do jogo ilegal — que absorve cerca de 40% dos jogadores — e por uma fiscalidade que alguns consideram pouco competitiva face a outros mercados europeus. A desaceleração do crescimento não é, portanto, apenas uma questão de saturação natural. É também reflexo de um desequilíbrio entre o mercado legal e o ilegal que teima em persistir.

Para quem aposta, estes dados trimestrais podem parecer abstratos. Mas têm consequências diretas: a saúde financeira dos operadores licenciados determina a qualidade da oferta, a variedade de mercados e a competitividade das odds que encontra nas apostas desportivas.

Perceber a evolução macro do mercado é o primeiro passo. Mas o que é que os portugueses apostam, concretamente? A resposta está nas modalidades — e o futebol domina de uma forma que poucos imaginam.

Desportos mais apostados pelos portugueses

Pergunto muitas vezes aos leitores: se tivessem de adivinhar que percentagem das apostas desportivas em Portugal recai sobre futebol, que número dariam? A maioria diz 50%, talvez 60%. A realidade é mais brutal — e mais reveladora do que se possa pensar sobre a cultura desportiva portuguesa.

Futebol

71–75% do volume total de apostas desportivas, dependendo do trimestre.

Ténis

16–22% do volume, segunda modalidade mais apostada.

Basquetebol

6–10% do volume, com a NBA a representar 58,6% das apostas nesta modalidade.

Futebol domina as apostas desportivas em Portugal com 75% do volume
O futebol representa entre 71% e 75% de todas as apostas desportivas realizadas em Portugal

Os dados do SRIJ não deixam margem para dúvidas. Nos primeiros nove meses de 2025, o futebol representou 71,8% de todas as apostas desportivas, seguido do ténis com 22,1%. No quarto trimestre, quando a Champions League e as principais ligas europeias intensificam o calendário, a fatia do futebol subiu para cerca de 75%. A Primeira Liga portuguesa, a Premier League inglesa e a Champions League foram as competições mais apostadas — nesta ordem de popularidade, o que diz muito sobre o interesse dos apostadores portugueses tanto no campeonato nacional como nas grandes competições internacionais.

O ténis ocupa um segundo lugar confortável, mas com uma dinâmica diferente. As flutuações trimestrais são maiores porque dependem do calendário dos Grand Slams e dos Masters 1000. Nos trimestres com Roland Garros ou Wimbledon, a fatia do ténis aproxima-se dos 22%; nos meses de inverno, com menos torneios de relevo, desce para os 16%.

Já o basquetebol é um caso interessante. Com apenas 6 a 10% do volume total, seria fácil descartá-lo como residual. Mas há um dado que muda a perspetiva: a NBA representou 58,6% do total de apostas em basquetebol no primeiro trimestre de 2025. Ou seja, os portugueses que apostam em basquetebol apostam, na sua maioria, na liga americana — não na Liga portuguesa ou sequer na Euroliga. É um reflexo direto da influência da transmissão televisiva e do streaming nos hábitos de apostas.

Pré-jogoAo vivo
Aposta colocada antes do início do eventoAposta colocada durante o evento, com odds dinâmicas
Odds estáveis, definidas com antecedênciaOdds flutuam conforme o decorrer do jogo
Tempo para análise e comparação de cotaçõesDecisão rápida, maior componente emocional
Dominante no volume total de apostasEm crescimento, especialmente no futebol e ténis

O que a distribuição por modalidades revela é uma dependência estrutural do futebol. Quando a época futebolística abranda — nas pausas internacionais ou no verão —, o volume total de apostas desce de forma visível. Para quem acompanha o mercado, isto representa tanto uma força como uma vulnerabilidade: o futebol é o motor, mas é também o único cilindro que realmente funciona a pleno. Uma análise mais detalhada das apostas no futebol, incluindo mercados específicos e dados por competição, está disponível no guia de apostas no futebol em Portugal.

Saber o que se aposta é uma parte da equação. A outra é saber quem permite que se aposte — e em que condições. É aqui que entram os operadores licenciados e o regulador que os supervisiona.

Operadores licenciados e o papel do SRIJ

Uma das perguntas que mais recebo é simples na aparência e complexa na resposta: “Como sei se um operador é legal?” A resposta curta é que qualquer operador legal em Portugal tem de ter licença do SRIJ. A resposta longa envolve perceber o que é esta entidade, quantos operadores existem e o que significa realmente operar sob regulamentação.

Em 30 de setembro de 2025, 18 entidades estavam autorizadas a operar jogo online em Portugal, detendo um total de 32 licenças. Destas, 13 eram licenças para apostas desportivas à cota, 18 para jogos de fortuna ou azar e uma para bingo. Os dados do quarto trimestre confirmam a estabilidade: 18 operadores licenciados, 32 plataformas ativas. Desde 2015, o número de operadores tem crescido de forma gradual, mas o mercado continua relativamente concentrado — os cinco maiores operadores detêm a esmagadora maioria do volume de apostas.

O que é o SRIJ

O Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos é a entidade responsável pela regulação, fiscalização e inspeção de toda a atividade de jogo em Portugal — tanto online como presencial. Funciona sob a tutela do Turismo de Portugal, que por sua vez depende do Ministério da Economia. O SRIJ atribui licenças, monitoriza o cumprimento das regras, publica relatórios trimestrais com dados do mercado e tem poderes para bloquear o acesso a sites ilegais. É, na prática, o guardião da legalidade do jogo em Portugal.

O processo de licenciamento não é simples nem barato. Um operador que pretenda oferecer apostas desportivas em Portugal precisa de cumprir requisitos técnicos rigorosos — desde a certificação dos sistemas informáticos até à demonstração de capacidade financeira, passando pela implementação de ferramentas de jogo responsável. A licença é atribuída por um período renovável e o operador está sujeito a inspeções periódicas. Se não cumprir, o SRIJ pode suspender ou revogar a licença.

Como verificar se um operador é licenciado

O SRIJ mantém no seu site oficial uma lista atualizada de todas as entidades autorizadas a explorar jogo online em Portugal. Qualquer pessoa pode consultar esta lista, verificar o número de licença de um operador e confirmar se o site onde pretende apostar é legal. Se o operador não constar da lista, não é legal — independentemente do que o site diga ou da aparência que tenha.

Esta estrutura regulatória tem um efeito direto na experiência do apostador. Nos operadores legais em Portugal, os fundos depositados estão protegidos, os dados pessoais são tratados segundo a legislação europeia, os levantamentos são garantidos e existe recurso em caso de litígio. No mercado ilegal, nenhuma destas garantias existe.

O modelo português é frequentemente citado como exemplo de regulamentação equilibrada na Europa. Não é perfeito — como veremos nas secções seguintes, a fiscalidade e o combate ao jogo ilegal continuam a gerar debate —, mas o facto de existirem relatórios públicos trimestrais com dados granulares sobre o mercado coloca Portugal à frente de muitos outros países no que toca a transparência. Para um aprofundamento sobre as funções e poderes do regulador, e sobre a história completa da regulamentação das apostas em Portugal, dediquei um artigo inteiro ao tema.

Os operadores pagam licenças e cumprem regras. Mas quanto pagam de impostos — e quem suporta, de facto, o custo fiscal das apostas? A resposta está no IEJO.

Fiscalidade: como funciona o IEJO e o que paga o jogador

Se há um tema que gera confusão entre apostadores — e até entre jornalistas —, é a fiscalidade das apostas em Portugal. Já perdi a conta às vezes que me perguntaram se os ganhos são taxados. A resposta é não, mas o diabo está nos detalhes, e os detalhes neste caso valem centenas de milhões de euros por ano.

O IEJO — Imposto Especial de Jogo Online — é o mecanismo fiscal que incide sobre a atividade dos operadores, não sobre os jogadores. A estrutura é dual: para apostas desportivas à cota, a taxa é de 8% sobre o volume total de apostas, ou seja, sobre o turnover; para jogos de fortuna ou azar, como slots e roleta, a taxa é de 25% sobre a receita bruta do jogo, o GGR. Esta diferença não é trivial e tem implicações profundas na forma como os operadores gerem as suas margens.

Exemplo de cálculo: IEJO sobre apostas desportivas

Suponhamos que, num determinado trimestre, um operador regista um volume total de apostas desportivas de 100 milhões de euros.

IEJO devido = 100 000 000 x 8% = 8 000 000 euros

Este imposto incide sobre o valor total apostado, independentemente de o operador ter lucro ou prejuízo nesse período. Se a margem do operador for de 10%, a receita bruta seria de 10 milhões de euros — mas o imposto de 8 milhões representaria 80% dessa receita. Na prática, a carga fiscal efetiva sobre as apostas desportivas é significativamente superior à dos jogos de casino.

Fiscalidade e imposto IEJO sobre apostas desportivas em Portugal
O IEJO é suportado pelos operadores, com taxas de 8% sobre apostas desportivas e 25% sobre casino

Este modelo de tributação sobre o turnover é uma das principais críticas da indústria ao regime fiscal português. Ricardo Domingues, da APAJO, tem argumentado que o modelo dificulta a competitividade dos operadores legais, empurrando uma parte significativa dos apostadores para plataformas ilegais que não pagam qualquer imposto — com uma estimativa de 100 milhões de euros anuais em impostos perdidos para os cofres do Estado.

Do lado do jogador, a situação é mais favorável. Os ganhos obtidos em operadores licenciados em Portugal estão isentos de imposto sobre o rendimento pessoal. Ou seja, se ganhar 10 000 euros numa aposta, não precisa de declarar esse valor nem de pagar IRS sobre ele. Esta isenção aplica-se exclusivamente a operadores com licença SRIJ — nos operadores ilegais, além de não existir qualquer proteção legal, a isenção fiscal simplesmente não se aplica.

Em termos de impacto nas contas públicas, o IEJO contribuiu com 99,3 milhões de euros para a receita fiscal no quarto trimestre de 2025, um aumento de 11% face ao período homólogo. Nos primeiros nove meses do ano, o total acumulado foi de quase 254 milhões de euros.

Os jogadores não pagam impostos sobre os ganhos nas apostas desportivas em Portugal, desde que apostem em operadores licenciados pelo SRIJ. O imposto sobre o jogo — IEJO — é suportado integralmente pelos operadores, com taxas de 8% sobre o turnover das apostas desportivas e 25% sobre o GGR do casino.

O modelo fiscal tem consequências diretas num problema que continua a crescer: o jogo ilegal. Se os operadores legais suportam uma carga fiscal pesada e os ilegais não pagam nada, o incentivo económico para jogar fora do mercado regulado torna-se evidente.

O problema do jogo ilegal em Portugal

Vou ser direto: o jogo ilegal em Portugal é um problema maior do que a maioria das pessoas imagina, e os números são difíceis de ignorar. Não estamos a falar de uma franja residual — estamos a falar de quase metade do mercado.

Um estudo da AXIMAGE para a APAJO, realizado em junho de 2025 com 1008 entrevistas, revelou que 40% dos portugueses que jogam online apostam em plataformas ilegais. Entre jovens de 18 a 34 anos, esse número sobe para 43%. E talvez o dado mais perturbante: 61% dos utilizadores que jogam em operadores ilegais nem sequer sabem que o estão a fazer. Usam sites que parecem legítimos, com interfaces profissionais e métodos de pagamento familiares, sem perceber que estão fora do mercado regulado.

Atenção: o jogo ilegal não oferece qualquer proteção

Nos operadores sem licença SRIJ, não existe garantia de pagamento dos ganhos, proteção de dados pessoais, recurso em caso de litígio, instrumentos de autoexclusão obrigatórios ou fiscalização por parte do regulador. Os fundos depositados podem desaparecer sem aviso e sem consequências para o operador.

Problema do jogo ilegal em Portugal com 40% dos jogadores em plataformas não licenciadas
Cerca de 40% dos portugueses que jogam online utilizam plataformas sem licença do SRIJ

O mesmo estudo da AXIMAGE identificou que quatro marcas não licenciadas surgiram no top 15 de operadores mais utilizados em Portugal, à frente de empresas com licença SRIJ. Este dado é particularmente revelador: não são sites obscuros de nicho — são plataformas com visibilidade e alcance suficiente para competir com os operadores legais. Em 2025, a MostBet, por exemplo, representou 42,58% das reclamações sobre casas de apostas ilegais no Portal da Queixa.

A promoção destes sites faz-se cada vez mais através de influenciadores nas redes sociais. Já foram apresentadas queixas contra mais de 30 influencers pela promoção de apostas ilegais, mas até ao momento não foi deduzida nenhuma acusação. Ricardo Domingues resumiu a situação com uma frase cortante: fazem-se queixas, investigações existem, mas nunca há acusações — o que acaba por significar que não há consequências reais para quem promove o jogo ilegal.

Desde a regulamentação em 2015, o SRIJ emitiu mais de 1522 notificações de encerramento de casas ilegais. Só no segundo trimestre de 2025 foram 97 notificações — o que demonstra que a atividade ilegal não está a diminuir, antes pelo contrário.

O impacto económico é igualmente significativo. A estimativa da APAJO é que o Estado perde cerca de 100 milhões de euros por ano em impostos que deveriam ser cobrados sobre a atividade de jogo que ocorre fora do mercado regulado. E estes são, nas palavras de Ricardo Domingues, números conservadores.

Para o apostador individual, a lição é clara: apostar em plataformas sem licença SRIJ não é apenas arriscado — é apostar sem rede. Sem proteção, sem recurso, sem garantia. A informação detalhada sobre como identificar e evitar operadores ilegais merece um tratamento próprio, que está fora do âmbito desta visão geral.

O que é igualmente verdade é que o regulador reconhece as limitações. São já vários anos sem melhorias substanciais no que toca a proteger os consumidores do jogo ilegal, como Ricardo Domingues tem sublinhado repetidamente.

Se o jogo ilegal é um problema de oferta, o perfil dos apostadores é uma questão de procura. Quem são, afinal, as pessoas que apostam em Portugal?

Quem aposta em Portugal: perfil demográfico

Há uma ideia persistente de que o apostador típico em Portugal é um homem de meia-idade sentado no café com um boletim da Placard. Os dados do SRIJ contam uma história diferente — mais jovem, mais digital e surpreendentemente internacional.

Idade dominante

77% dos jogadores registados têm menos de 45 anos. A faixa 25–34 anos representa um terço do mercado.

Novos registos

A faixa 18–24 anos domina os novos registos, com 30,9% do total.

Jogadores estrangeiros

Cerca de 49% dos registos de jogadores com nacionalidade estrangeira são brasileiros.

Os quase 5 milhões de contas registadas no final de 2025, com mais de 230 mil novos registos só no último trimestre, representam um mercado em expansão contínua. Mas nem todas essas contas estão ativas — aproximadamente 1,2 milhões de jogadores estiveram efetivamente ativos no quarto trimestre de 2025. A diferença entre registos totais e jogadores ativos é um indicador importante: muitas pessoas registam-se, experimentam e abandonam, ou mantêm contas em múltiplos operadores sem atividade regular.

O perfil etário é claro. Três em cada quatro apostadores têm menos de 45 anos, e a faixa dos 25 aos 34 anos é a mais representada. É uma geração que cresceu com a internet, que acede às plataformas de apostas através do telemóvel e que está habituada a consumir desporto em formato digital. A entrada de novos jogadores concentra-se no segmento 18–24 anos — quase um terço dos novos registos —, o que sinaliza que o mercado continua a rejuvenescer.

A componente internacional é outro aspeto que merece destaque. Os jogadores de nacionalidade brasileira representaram entre 48,5% e 49,3% do total de registos estrangeiros ao longo dos três primeiros trimestres de 2025. A forte comunidade brasileira em Portugal, combinada com a familiaridade linguística e cultural, transforma este grupo na principal comunidade estrangeira no jogo online português. Este facto tem implicações na oferta dos operadores — muitos adaptam promoções e conteúdos para este público.

Para quem analisa o mercado, o perfil demográfico revela tanto oportunidades como riscos. A predominância de jovens adultos coloca questões sobre jogo responsável e exposição precoce que não podem ser ignoradas — questões que os dados europeus sobre adolescentes e gambling tornaram ainda mais urgentes.

Um mercado jovem e em crescimento exige contrapartidas de proteção. Os números da autoexclusão mostram que essa necessidade não é teórica — é medida em centenas de milhares de contas.

Jogo responsável e autoexclusão

Há uma conversa que evito ter com ligeireza, e é esta. O jogo responsável não é um slogan que se cola no rodapé de um site — é o tema mais importante de todo o ecossistema das apostas, e os números mostram porquê.

No final de setembro de 2025, existiam 342 200 registos de jogadores autoexcluídos em Portugal, um aumento de 23,9% face ao período homólogo. No final do ano, as contas autoexcluídas ultrapassaram as 361 000. Para colocar isto em perspetiva: o rácio de autoexcluídos face ao total de registos situava-se em 6,9% no final do terceiro trimestre. Quase sete em cada cem contas registadas optaram pela autoexclusão — um número que tem vindo a crescer de forma consistente ano após ano.

Jogo responsável e autoexclusão nas apostas em Portugal com mais de 361 mil contas
Mais de 361 000 contas estavam autoexcluídas no final de 2025, um crescimento contínuo ano após ano

A evolução é impressionante quando vista numa linha temporal: 47 800 autoexcluídos em 2019, 72 400 em 2020, 109 400 em 2021, 150 900 em 2022, 215 000 em 2023. Cada ano, o número praticamente duplica ou quase duplica. Há quem interprete isto como um sinal positivo — mais pessoas a recorrer a ferramentas de proteção —, mas há também quem veja um indicador de que o jogo problemático está a alastrar.

Ricardo Domingues alertou para uma realidade incómoda: quando alguém se autoexclui mas procura continuar a jogar, acaba por entrar no pior caminho possível — recorrendo a operadores ilegais onde não existem ferramentas de proteção, limites de depósito ou qualquer forma de controlo. É uma espiral que o mercado regulado, sozinho, não consegue travar.

Fazer

  • Definir um orçamento mensal fixo para apostas e respeitá-lo sem exceções
  • Utilizar os limites de depósito e de perda disponíveis em todos os operadores licenciados
  • Pedir autoexclusão imediatamente se sentir que perdeu o controlo da atividade de jogo
  • Contactar a Linha 1414 se precisar de apoio ou orientação profissional

Evitar

  • Apostar para recuperar perdas anteriores — a chamada “chasing losses”
  • Jogar com dinheiro destinado a despesas essenciais
  • Ignorar os sinais de alerta: aumento progressivo dos valores apostados, irritabilidade e mentiras sobre a atividade de jogo
  • Recorrer a operadores ilegais após autoexclusão nos sites legais

Linha 1414 — Apoio ao Jogador

A Linha 1414 é o serviço de apoio telefónico para jogadores com comportamentos problemáticos, gratuito e confidencial. Funciona sob a tutela do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). Qualquer pessoa pode ligar — não precisa de ser o próprio jogador; familiares e amigos também podem recorrer a este serviço.

O tema do jogo responsável nas apostas em Portugal merece, e tem, um tratamento aprofundado com mecanismos de autoexclusão, limites disponíveis e recursos de apoio. Aqui, o que importa reter é que a dimensão do problema é real, mensurável e crescente — e que as ferramentas existem, mas só funcionam se forem usadas.

Do jogo responsável ao mundo do futebol, a transição pode parecer abrupta. Mas há uma ligação direta entre ambos: os patrocínios de marcas de apostas nos clubes, que normalizam a presença do jogo no quotidiano desportivo.

Apostas e patrocínios no futebol

No último jogo de futebol que vi ao vivo em Portugal, contei quatro marcas de apostas diferentes nos painéis publicitários do estádio. Nas camisolas dos jogadores, mais duas. No naming da competição, outra. A presença das empresas de apostas no futebol português — e europeu — é tão omnipresente que já nem damos por ela. Mas os números são eloquentes.

Na época 2024/25, 296 dos 442 clubes europeus de topo, em 31 ligas analisadas, tinham pelo menos uma parceria com uma empresa de apostas. São quase 300 clubes ligados a marcas de betting — mais de dois terços dos grandes clubes europeus.

Em Portugal, a situação é proporcionalmente ainda mais acentuada. Mais de 70% dos clubes da primeira divisão tinham patrocínios de empresas de apostas nas camisolas. A Liga Portugal Betclic é uma das 14 ligas europeias cujo naming sponsor é uma empresa de apostas ou lotaria — o próprio nome da competição carrega uma marca de betting.

Pedro Iriondo, da Football Benchmark, contextualizou esta realidade como algo natural, dada a ligação intrínseca entre as apostas e os eventos desportivos, argumentando que é normal que as marcas de apostas invistam em clubes, ligas e espaços publicitários em torno da experiência do jogo.

Mas nem todos partilham esta visão. O debate sobre a proibição de patrocínios de apostas no futebol está ativo em toda a Europa. A Premier League inglesa vai proibir patrocínios de apostas na frente das camisolas a partir da época 2026/27 — uma decisão que pode criar um efeito dominó noutras ligas. Em Portugal, a discussão existe, mas sem medidas concretas no horizonte imediato.

Para quem acompanha o mercado de apostas, os patrocínios são um tema de dupla leitura. Por um lado, representam uma fonte de receita vital para clubes que dependem destes contratos para equilibrar as contas. Por outro, contribuem para a normalização do jogo entre públicos cada vez mais jovens — precisamente o segmento que os dados do ESPAD mostram estar mais exposto. O artigo sobre apostas no futebol em Portugal aprofunda a relação entre clubes, ligas e marcas de apostas no contexto português.

Apostas via telemóvel: a tendência dominante

Assisti à transformação em tempo real. Quando comecei a analisar este mercado, as apostas faziam-se maioritariamente num computador, com calma, antes dos jogos. Hoje, a maioria das apostas em Portugal é feita com o polegar, num ecrã de cinco polegadas, muitas vezes enquanto o jogo está a decorrer.

Em 2025, estima-se que mais de 75% de todas as apostas online em Portugal sejam efetuadas via smartphone ou tablet. Este número não surpreende quem acompanha as tendências internacionais, mas a velocidade da transição no mercado português é notável. Há menos de cinco anos, a maioria dos operadores ainda tratava as apps mobile como um complemento — hoje, é o canal principal e, para muitos, o único.

A predominância do mobile tem consequências que vão além da conveniência. A facilidade de acesso — com o telemóvel sempre no bolso, a uma aposta basta desbloquear o ecrã — altera a relação com o jogo. As apostas ao vivo, que dependem de decisões rápidas durante o decorrer de um evento, beneficiam diretamente do mobile. A tentação de apostar por impulso aumenta quando a plataforma está literalmente na palma da mão, 24 horas por dia.

Para os operadores, o mobile obrigou a repensar toda a experiência do utilizador. Interfaces simplificadas, notificações push com odds atualizadas, depósitos com um toque — tudo desenhado para reduzir a fricção entre a intenção de apostar e a efetivação da aposta. Esta otimização é, simultaneamente, um avanço em termos de experiência e um desafio em termos de jogo responsável.

Os dados demográficos ajudam a explicar esta tendência. Com 77% dos apostadores abaixo dos 45 anos e a faixa 18–24 a liderar os novos registos, estamos perante uma base de utilizadores que vive no mobile. Para esta geração, apostar pelo computador é tão antiquado como ir a uma loja física levantar um boletim de apostas.

Para fechar este guia, reuni as perguntas que mais recebo sobre apostas desportivas em Portugal — com respostas diretas, sem rodeios.

Analista de Apostas Desportivas · Especializado em regulamentação do mercado português, análise de odds e tendências do setor de jogo online

Perguntas frequentes sobre apostas desportivas em Portugal

Odds — as cotações atribuídas a um resultado desportivo, expressas em formato decimal no mercado português. Representam simultaneamente a probabilidade implícita do evento e o retorno potencial da aposta.

Cash out — funcionalidade que permite ao apostador encerrar uma aposta antes do fim do evento, recebendo um valor calculado com base nas odds atuais. Pode ser total ou parcial.

Handicap asiático — mercado de aposta que elimina a possibilidade de empate, atribuindo uma vantagem ou desvantagem fictícia a uma das equipas antes do início do jogo.

As apostas desportivas são legais em Portugal?

Sim, desde 2015. O Regime Jurídico do Jogo Online regulamentou as apostas desportivas online em Portugal, criando um sistema de licenciamento supervisionado pelo SRIJ. Apenas os operadores com licença atribuída pelo SRIJ podem oferecer legalmente apostas desportivas aos residentes em Portugal. Existiam 18 entidades autorizadas com 32 licenças ativas. Apostar em operadores sem licença é ilegal e não oferece qualquer proteção ao jogador.

Tenho de pagar impostos sobre os ganhos das apostas em Portugal?

Não. Os ganhos obtidos em apostas realizadas em operadores licenciados pelo SRIJ estão isentos de imposto sobre o rendimento pessoal em Portugal. O imposto sobre o jogo — o IEJO — é suportado integralmente pelos operadores, com uma taxa de 8% sobre o volume de apostas desportivas e 25% sobre a receita bruta dos jogos de casino. Esta isenção fiscal aplica-se exclusivamente a operadores legais; nos operadores sem licença, não existe qualquer garantia fiscal.

O que é o SRIJ e qual o seu papel na regulação das apostas?

O SRIJ — Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos — é a entidade responsável por regular, fiscalizar e inspecionar toda a atividade de jogo em Portugal, tanto online como presencial. Funciona sob a tutela do Turismo de Portugal e tem competências que incluem a atribuição de licenças a operadores, a monitorização do cumprimento das regras, a publicação de relatórios trimestrais com dados do mercado e o bloqueio de acesso a sites ilegais. Desde 2015, emitiu mais de 1522 notificações de encerramento de plataformas ilegais.

Como funciona a autoexclusão nas apostas online?

A autoexclusão é um mecanismo que permite ao jogador bloquear o seu próprio acesso às plataformas de jogo online. Pode ser solicitada diretamente ao operador ou através do registo centralizado gerido pelo SRIJ. O período mínimo de autoexclusão é de três meses, podendo ser estendido. No final de 2025, mais de 361 000 contas estavam autoexcluídas em Portugal — um crescimento contínuo que reflete tanto o aumento da utilização destas ferramentas como a dimensão do jogo problemático.

Quais são os desportos mais apostados em Portugal?

O futebol domina de forma esmagadora, representando entre 71% e 75% do volume total de apostas desportivas, dependendo do trimestre. A Primeira Liga, a Premier League e a Champions League são as competições mais apostadas. O ténis ocupa o segundo lugar com 16% a 22% do volume, seguido do basquetebol com 6% a 10%, sendo a NBA a liga mais apostada nesta modalidade. A distribuição varia sazonalmente, com o futebol a atingir picos durante a temporada europeia.

Quais os riscos de apostar em sites não licenciados?

Os riscos são substanciais e concretos. Nos operadores sem licença SRIJ, não existe garantia de pagamento de ganhos, proteção de dados pessoais segundo a legislação europeia, recurso em caso de litígio, instrumentos obrigatórios de jogo responsável nem fiscalização por parte de qualquer entidade reguladora. Dados de 2025 mostram que 40% dos portugueses que jogam online utilizam plataformas ilegais, e 61% destes nem sequer sabem que o fazem. A isenção fiscal sobre os ganhos também não se aplica a operadores ilegais.

Quantos operadores de apostas têm licença em Portugal?

18 entidades estavam autorizadas pelo SRIJ a operar jogo online em Portugal, gerindo um total de 32 licenças ativas. Destas, 13 eram licenças para apostas desportivas à cota, 18 para jogos de fortuna ou azar e uma para bingo. A lista de operadores licenciados é pública e está disponível no site oficial do SRIJ, onde qualquer pessoa pode verificar a legalidade de um operador antes de se registar.

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