28 de Maio, 2026

Jovens e Apostas Online em Portugal: Dados ESPAD e Riscos Emergentes

O jogo online entre jovens europeus duplicou em cinco anos

Há dados que nos deviam tirar o sono. O jogo online entre adolescentes europeus duplicou entre 2019 e 2024, passando de 7,9% para 14%. Entre raparigas, triplicou — de 2,7% para 8,7%. Estes números vêm do ESPAD, o maior estudo europeu sobre comportamentos de risco entre jovens dos 15 aos 16 anos, com 113 mil inquiridos em 37 países. Não são projeções nem estimativas — são respostas diretas de adolescentes sobre o que fazem com o seu dinheiro e o seu tempo.

Trabalho no setor das apostas desportivas há nove anos. Analiso mercados, estudo regulamentação, defendo o direito dos adultos a apostar de forma informada. Mas quando os dados mostram que crianças estão a entrar num mercado desenhado para adultos, a análise muda de registo. Já não se trata de odds e margens — trata-se de proteção de menores num ambiente digital onde as barreiras de acesso são frágeis.

Dados ESPAD 2024: o que revelam

O relatório ESPAD 2024, publicado pela EUDA (European Union Drugs Agency), pintou um quadro que ninguém pode ignorar. Dos 113 mil estudantes europeus inquiridos, 23% reportaram ter apostado dinheiro nos últimos 12 meses. Quase um em cada quatro adolescentes de 15-16 anos já apostou dinheiro real.

O crescimento mais acentuado está no jogo online. A duplicação de 7,9% para 14% em cinco anos reflete a facilidade de acesso proporcionada pelos smartphones e a normalização das apostas na cultura jovem, alimentada pela publicidade, pelas redes sociais e pelos influencers. Estes não são adolescentes que vão a um casino físico ou que compram raspadinhas no quiosque — são jovens que acedem a plataformas de apostas através de telemóveis, muitas vezes utilizando contas de familiares ou recorrendo a operadores que não verificam a idade de forma rigorosa.

O indicador mais preocupante é o comportamento de jogo problemático medido pela escala Lie/Bet. A percentagem de jovens europeus com sinais de jogo potencialmente problemático quase duplicou: de 4,7% em 2019 para 8,5% em 2024. Esta escala identifica comportamentos como mentir sobre a extensão do jogo e sentir necessidade de apostar montantes crescentes — sinais que, em adultos, são considerados indicadores de risco clínico.

O estudo revelou ainda disparidades geográficas significativas. Os países do sul e do leste europeu tendem a apresentar taxas mais elevadas de jogo entre jovens. E dentro deste panorama, Portugal destaca-se por um motivo específico que merece atenção detalhada.

Portugal: o maior gap de género na Europa

Se há um dado do ESPAD que coloca Portugal no centro da discussão, é este: a diferença de género no jogo online entre jovens portugueses é a mais elevada de toda a Europa. Entre os jovens que jogam, 80% são rapazes e 43% são raparigas — um desequilíbrio que é, simultaneamente, o mais extremo do continente.

A EUDA sublinhou nas conclusões do relatório que o bem-estar mental e a prevenção devem tornar-se pilares centrais dos sistemas de apoio aos jovens, referindo comportamentos novos com potencial significativo de dano que exigem respostas modernas e baseadas em evidência. Portugal, com o seu gap de género recorde, é um caso de estudo para estas respostas.

O que explica esta disparidade? Não há uma resposta única, mas vários fatores convergem. A cultura desportiva portuguesa — particularmente o futebol — é mais fortemente associada ao público masculino, e as apostas desportivas herdam essa associação. A publicidade de apostas em Portugal, incluindo os patrocínios no futebol, dirige-se predominantemente a um público masculino jovem. As redes sociais amplificam este direcionamento, com influencers de apostas que falam predominantemente para audiências masculinas.

A implicação prática não é que as raparigas estejam protegidas — a taxa de 43% é alarmante em si mesma. É que os rapazes portugueses estão expostos a uma pressão combinada de cultura desportiva, publicidade e pares que os torna particularmente vulneráveis ao jogo precoce. E quando o jogo começa antes dos 18 anos, a probabilidade de desenvolver comportamentos problemáticos na idade adulta aumenta significativamente.

Prevenção e papel dos pais e educadores

A prevenção do jogo problemático entre jovens não pode depender exclusivamente do regulador ou dos operadores. Depende, em primeiro lugar, dos adultos que estão mais próximos — pais, educadores e, numa perspetiva mais ampla, a comunidade.

O primeiro passo é a informação. Muitos pais desconhecem que os seus filhos acedem a plataformas de apostas — ou que essas plataformas existem e são acessíveis através do telemóvel. Uma conversa franca sobre apostas, odds e riscos financeiros pode ser tão importante como as conversas sobre álcool ou drogas. O jogo online é, para esta geração, um comportamento de risco com uma prevalência comparável a outros comportamentos que já fazem parte das campanhas de prevenção tradicionais.

O segundo passo é a supervisão digital. Ferramentas de controlo parental podem bloquear o acesso a sites de apostas. A verificação regular das apps instaladas no telemóvel dos filhos — feita de forma transparente, não invasiva — permite detetar sinais precoces. Se um adolescente tem uma app de apostas instalada, mesmo que não tenha dinheiro na conta, é um sinal de que a barreira entre curiosidade e ação já foi parcialmente ultrapassada.

As escolas também desempenham um papel que, em Portugal, está largamente por explorar. Programas de literacia financeira que incluam o tema das apostas e do jogo — não como conteúdo moralista, mas como educação sobre probabilidades, risco e gestão de dinheiro — poderiam dar aos jovens ferramentas concretas para tomar decisões informadas quando inevitavelmente forem expostos a oportunidades de jogo. Alguns países nórdicos já integram este tipo de conteúdo nos currículos escolares, com resultados promissores na redução do jogo problemático entre adolescentes.

O terceiro passo é dar o exemplo. Pais que apostam abertamente à frente dos filhos, que comentam odds durante jogos de futebol, que celebram ganhos e minimizam perdas, estão a normalizar um comportamento que, para um adolescente, se traduz numa mensagem simples: apostar é normal e divertido. Não estou a dizer que os adultos devem esconder as suas atividades — estou a dizer que o contexto em que o fazem importa. Para quem quer ajuda neste tema, a Linha SOS Jogador 1414 oferece orientação também a familiares.

Perguntas frequentes

[faq] [id=”1″ title=”Os dados ESPAD indicam que o jogo entre jovens está a aumentar em Portugal?” desc=”Sim. O relatório ESPAD 2024 mostra que o jogo online entre adolescentes europeus duplicou desde 2019, e Portugal destaca-se com o maior gap de género na Europa: 80% rapazes vs 43% raparigas entre os jovens que jogam.”] [id=”2″ title=”Como podem os pais prevenir o acesso dos filhos a sites de apostas?” desc=”Os pais podem utilizar ferramentas de controlo parental para bloquear sites de apostas, verificar regularmente as apps instaladas nos dispositivos dos filhos, e ter conversas abertas sobre os riscos do jogo. A Linha 1414 oferece orientação a familiares.”] [/faq]